“Não se varre o vazio para debaixo do tapete”: sobre a necessidade de estar só, insuficiência humana e autoestima

“E, de resto, quem teria uma ilusão tão firme para encontrar no outro o que buscou em vão em si mesmo? Um calor nas entranhas nos dará o que o universo inteiro não soube oferecer-nos? E, no entanto, esse é o fundamento desta anomalia corrente e sobrenatural: resolver a dois – ou antes, suspender – todos os enigmas; graças a uma impostura. esquecer esta ficção em que está mergulhada a vida: com uma dupla carícia preencher a vacuidade geral: e – paródia do êxtase – afogar-se, finalmente, no suor de um cúmplice qualquer…)”
CIORAN, Breviário de decomposição

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A psicanalista Maria Homem fala da necessidade de solidão, sobretudo nos tempos atuais em que são estimulados, de maneira maximizada, o gregarismo, o espírito de rebanho, a dependência e a heteronomia em todos os níveis e sentidos, em detrimento de todo ideal de emancipação e autonomia subjetiva.

Não tardará para que essa questão humana por excelência se transfira da filosofia para à psicologia e para a psicanálise. Qualquer filosofia, vertente ou profissional da filosofia que se dedique, hoje, a tais questões, deve forçosamente fazê-lo de maneira multidisciplinar, em diálogo com a psicologia e a psicanálise e muitas outras áreas do saber (como faz Maria Homem e, ademais, a propósito, no contexto francês, Clément Rosset).

Contudo, é imperioso pensar o desafio da solidão no mundo contemporâneo hiperconectado, e não menos inclinado a excessos e comportamentos abusivos, de diversas naturezas, a despeito de todo avanço científico, tecnológico, inclusive no âmbito da psicologia e da psicanálise. A popularidade da “literatura” de autoajuda é proporcional à desorientação, à incerteza, à insegurança, à infelicidade e à angústia surdo-muda que caracterizam a Era da Autoajuda — a mesma que a Era da Razão, em seus estágios mais tardios, “crepusculares”.

Maria Homem afirma que o pensamento intuitivo e autêntico é necessariamente individual e solitário, não um trabalho de grupo, pautado pelo espírito de “rebanho” ou de “manada”, como afirma ela. Sim, mas o homem e a mulher contemporâneo desaprenderam a tal ponto a estarem sós, a valorizar a solidão, gostar de estar a sós, e inclusive dispor favoravelmente da solidão — de maneira reflexiva, criativa, ruminativa, que basta a ideia de tal condição, da situação solitária — para sentirem um profundo mal-estar. Desaprendizado paralelo a um outro: o do pensamento da morte, da reflexão sobre a condição humana finita e mortal, escamoteada pela “cultura” (publicidade, mídia, redes sociais, indústria cultural, consumismo). Uma hora, todo mundo morre, mas ninguém é mortal

Tudo isso para remeter a um tema atual (assim como este outro, o “poliamor”, que não me interessa aqui), e tão sintomático da nossa situação existencial precária, do “autocasamento” ou “sologamia”. E, colocando-o em pauta, enquanto idea, questão, problema, remeter também, particularmente, ao caso recente, e trágico, da influenciadora digital brasileira que, 1 dia após casar consigo mesma, tirou a própria vida. Que nunca se julgue de fora, nem o ato, nem o sujeito, trata-se da decisão de “casar consigo”, trate-se daquela de tirar a própria vida (suicídio). Duas decisões desesperadas tomadas por Alline Araújo, uma moça jovem, saudável e muito bonita (o que, para o bem ou para o mal, é “capital simbólico” de primeiro grau), que contava com mais de 300 mil seguidores nas redes sociais.

Infelizmente, foi o que muita gente fez, e tornou a fazer: julgá-la e ridicularizá-la (bullying) nas redes sociais pelo “autocasamento”, e também (desta vez os moralistas de plantão, fanáticos religiosos, Jesus freaks) por ter se matado. Ninguém conhece a estória de vida de ninguém, suas provações, traumas e dores, tudo pelo que o destino ou o acaso idiota a fez passar, para sentir-se autorizado e habilitado a emitir julgamentos morais. Não tardou em vir a tona um fato motivador flagrante: a moça estava noiva, de casamento marcado, e o seu namorado, o noivo, se mandou sem mais nem menos na véspera do casamento. O “autocasamento”, na verdade, era para ser um casamento tradicional, entre duas pessoas, mas como o noivo fugiu, desgraçando a vida da pobre coitada…

Há, na Itália, um outro caso recente de “autocasamento”, este, aparentemente, deliberado desde o início. Que não haja espaço para dúvidas: o “autocasamento” enquanto fenômeno (sociológico, cultural, psicológico), em si mesmo, é risível. Para fazer uma analogia com a máxima nietzschiana do “tornar-se quem tu és” (caso possamos dar a ela certo rigor filosófico e psicológico que não é típico das simplificações “autoajuda” de Nietzsche), não faz nenhum sentido casar-se, se o outro do matrimônio é a própria pessoa, pois a não ser que se nasceu “separado” ou “divorciado” de si, qualquer pessoa sempre esteve, desde que veio a ser, que se tornou pessoa, “casado(a)” consigo mesmo(a). Então, para que redobrar, redundar, oficializar, por convenção social, esse “casamento” simbólico? Casar-se consigo mesmo, como quiseram fazer estas duas moças, e talvez muitas outras, e homens também, venham a fazer, não é o mesmo que “tornar-se quem tu és”.

Tudo isso para colocar em pauta, e em questão, a gravidade da nossa situação, e a gravidade tão mais gritante da nossa cegueira generalizada, massiva, em relação a esta situação (existencial, psíquica, cultural, civilizacional). Estamos adoecidos, muito doentes, espiritualmente, e superficialmente obcecados pela saúde. De onde existirem mais farmácias do que livrarias e parques (assim como mais fast-food do que comida natural), e o que é mais, as farmácias se tornaram megastores, verdadeiros “parques temáticos” da saúde, megatemplos do consumismo vicioso disfarçado de elixir universal.

Como escreve o velho Cioran, “não há nas farmácias nada específico contra a existência; só pequenos remédios para os fanfarrões. Mas onde está o antídoto do desespero claro, infinitamente articulado, orgulhoso e seguro? Todos os seres são desgraçados; mas, quantos o sabem? A consciência da infelicidade é uma doença grave demais para figurar em uma aritmética das agonias ou nos registros do Incurável.” (Breviário de decomposição)

Quando em contato com nós mesmas — o seu nada, o seu vazio — na solidão, nos angustiamos, nos estranhamos, às vezes desesperamos. Aqui começa toda filosofia existencial, não nesse espanto maravilhado (thauma) que o Gregos mal distinguiam do prazer contemplativo, senão na angústia, no desespero e no drama de saber-se existir, e existir a sós, enquanto indivíduo (“solidão de ser irrevogavelmente indivíduos”, diz Cioran). A solidão dá medo, como o pensamento da morte (e eles estão intimamente relacionados). Tudo o que é solitário, irredutivelmente individual, profundo e intransferível, remete à morte; no nosso íntimo, no mais profundo de si, encontraremos tudo isso nos faz passar, em ato ou em pensamento, da vida à morte, do ser ao não-ser, da forma à matéria informe, da ordem ao caos.

Maria Homem ressalta que a psicologia, enquanto ciência humana (do espírito), foi em grande medida responsável pelo vitimismo segundo o qual o mal e a doença, e portanto a criminalidade, a monstruosidade, todo tipo de transgressão e violão das leis e dos valores, é “culpa da sociedade”, ou então da família, do pai, da mãe, do tio ou da madrasta. Não que o condicionamento social não impacte de maneira determinante no curso da vida de um indivíduo, sobretudo se tais marcas (digamos, violentas, abusivas, negativas em suma) lhe forem impressas ainda cedo, quando criança. Mas absolutizar a tese contextualista que transfere para a sociedade, e portanto para a alteridade (Kant diria a heteronomia, instituições, terceiros), a sua própria responsabilidade e, o que é pior, a culpa por alguém ser o que é ou fazer o que faz, isto é o cúmulo do derrotismo fatalista, que precisa sempre, e incondicionalmente, ser evitado e combatido.

Além de denotar a mais baixa minoridade do espírito, a distância de toda emancipação e a ausência de autonomia subjetiva, crítico-racional (Kant), poder-se-ia dizer também que, existencialmente falando (Sartre), tal postura (derrotista, vitimista, “mimimi”) é o cúmulo da existência inautêntica, alienada, vazia, perfeitamente inconsciente, em termos filosóficos, de si, do seu “eu” profundo.

No seu — mais atual do que nunca — Mito de Sísifo, Albert Camus tematiza e problematiza, por um viés rigorosamente filosófico, existencial, o fenômeno do suicídio. Ele já começa afirmando que o suicídio remete ao único e verdadeiro problema da filosofia: saber se a vida vale a pena, merece ser vivida (postura afirmativa, negação do suicídio e aceitação do absurdo), ou se não, o suicídio. Questão que já vem de Nietzsche, mais do que de qualquer outro — ele que, após formar-se no pessimismo de Schopenhauer, volta-se contra o antigo mestre, doravante interpretado pelo filtro hermenêutico-genealógico do niilismo (passivo), revalorando e transfigurando o pessimismo negativo de modo a transmutá-lo numa atitude existencial tragicamente afirmativa, aprobatória e inclusive alegre. “É preciso imaginar Sísifo feliz”, escreve Camus, Nietzsche ao fundo. É o desafio do Zaratustra; a experiência psicológica — teste de fogo de toda capacidade aprobatória — do Eterno Retorno.

Infelizmente, Alline de Araújo não pôde suportar a dor do abandono, da traição, não soube transmutá-la em vontade de vida, de potência, de existência, de continuar tentando, suportando, buscando, tornando a amar e a sofrer… O que aconteceu a ela, uma vez consumado, ela desejou que não tivesse acontecido nem uma vez sequer, imagine infinitas vezes, para toda a eternidade!

Que ninguém tenha a ousadia, a covardia e a petulância de julgá-la. Nada é julgável, não existe base comum, tábua de valores eternos e universais, modelo absoluto, verdade em si, que possa fundamentar os juízos morais (assentados nas nuvens, castelos no ar). O seu desespero, a sua dor, a sua fuga, de onde o ato capital e final, não carece de relação com a tendência, apontada conscienciosamente por Maria Homem, ao vitimismo e ao derrotismo, a esvaziar-se de toda responsabilidade, e de toda subjetividade autêntica, autônoma, à medida que se transfere a um outro, à heteronomia, à sociedade ou à família, a culpa pelo que se é e pelo que se faz.

Neste mundo de acaso e necessidades, ninguém é mais “culpado” de tudo do que de nada. Tudo estava fadado a ser como foi, a partir do momento que foi. Caso contrário, se desejamos, retrospectivamente, retroativamente, que tivesse sido diferente do que foi, é porque nossa vontade não foi potente o suficiente para fazer coincidir o querer com o ser. Neste mundo, liberdade e necessidade, liberdade e “condenação”, se confundem. A cada um, a sua cruz.

A julgar por Freud, a maturidade é, cada vez mais, quase uma questão de heroísmo. Eu mesmo não estou isento, muitas vezes, desse tipo de pensamento (vitimista, derrotista, “mimimi”), desse defeito, dessa fraqueza. Tento combatê-lo. Como guia, princípio orientador, não vejo proposição melhor que esta de Jean-Paul Sartre (em tradução livre, preservando o sentido): “O que conta não é o que a vida fez de você, mas o que você fará com o que a vida fez de você (a partir de agora)”.

É importante notar que, no seu texto sobre a natureza do Esclarecimento, Kant deposita suas fichas de esperança menos nas capacidades intelectuais das pessoas do que em sua coragem (virtude moral, não racional) para desejar a liberdade e a autonomia — no que, pelo menos aqui, estaria em concordância com Dostoiévski, a julgar pela sua Lenda do Grande Inquisidor. Temos medo, e preguiça, da liberdade, da autonomia, de pensar e decidir por nós mesmos, com todo o esforço de originalidade e criatividade que isso exige. É mais fácil e mais conveniente delegar a terceiros, terceirizar os nossos esforços, e também esperar de fora, contar com os outros, e mesmo depender dos outros, de sua aprovação, de seus likes, para confirmar-se acerca da imagem idealizada que nos fazemos de nós mesmos. Como não identificar em Black Mirror uma produção, em muitos sentidos e aspectos, visionária?

 

 

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